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Intolerância (ir)religiosa

Ser ateu é um perigo ocupacional. Na verdade, ser qualquer coisa, hoje em dia, é um perigo ocupacional. Eu tive um professor que dizia não formar opinião sobre absolutamente nada para evitar ser odiado. Não assistia futebol, votava em branco, ouvia MPB (nada contra, mas é uma escolha fácil, praticamente ninguém tem algo contra). Até ele era cristão.

Ser cristão é a norma, é a única coisa inteiramente socialmente aceita. Em dúvida, diga ser católico não-praticante, isto não vai te excluir de nenhum grupo de pessoas medianamente inteligentes. Já ser anti-cristão.

Prova disto é como há um número muito maior de termos pejorativos para os não-cristãos. Praticante de religião afro é automaticamente macumbeiro, e toda macumba ou saravá é maligno. Um crente (sem conotação pejorativa aí) nunca vai se referir a um ateu como “ateu”. A palavra dá medo. Se utilizá-la, será precedida de um artigo indefinido e carregada com asco. “Fulano é Um Ateu“, e não “Fulano é ateu“. Pode parecer insignificante, mas troque ateu por negro e todo o preconceito fica mais claro (no pun intended).

O perigo ocupacional está no fato de que crentes são intolerantes e têm absoluta certeza de que a sua fé (baseada em interpretações distorcidas de textos mal-traduzidos e alterados) é a única verdade™, aleluia e glória irmãos.

E, enquanto nós ateus também podemos ser religiosamente intolerantes, nós normalmente temos um mínimo de noção de não basear todas as nossas decisões nisso. Um ateu daria um emprego a um crente, mas o inverso é muito mais difícil de acontecer. Se você acha isto estranho, troque ateu por homossexual e crente por homofóbico. Os personagens mudam, o quadro é o mesmo. As minorias sempre têm a mente mais aberta.

Opa, minoria? Minoria em relação a quê? No quadro geral de religiões, sim, ateus são minoria, quando comparados com Cristãos, Muçulmanos, Hindus e afins. Agora, limitando-se o domínio da função, nós chegamos a dados mais realistas. Vamos ver qual o percentual de ateus com nível superior. Agora, com um diploma superior numa ciência exata. Trabalhando com pesquisa na área. Já devemos ter chegado perto dos 95%.

Basta ver que quem teve uma educação melhor, foi incentivado a ler e, principalmente, pensar, acaba se descobrindo ateu. Claro que este não é o único fator, de todos os que estudaram nas mesmas escolas que eu, devo conhecer uns 3 ateus hoje em dia. (Que se assumem ateus. Sair do armário é muito complicado, justamente por culpa da intolerância alheia). O MrManson escreveu um texto ótimo, aliás, convidando todos os ateus enrustidos a sairem do armário.

Esta intolerância não era tão visível há alguns anos. O movimento ateu nem mesmo existia há 20 anos, o que havia era alguns poucos corajosos que se declaravam ateus (e provavelmente eram apedrejados). Com o advento da internet e da pseudo-anonimicidade por ela provida muito mais ateus resolveram sair do armário. Mas com ela também veio a inclusão digital, e muita gente cujo único livro com o qual teve contato foi a Bíblia [1] teve a oportunidade de entrar em contato com a informação. Mas aí já era tarde demais. Já havia toda uma geração completamente brainwashed que não queria informação útil nova, e sim negar tudo o que lhes é contrário.

Estas pessoas parecem passar seus dias procurando no google por keywords como ateu, capeta, diabo ou pensamento racional para mostrar para todos os hereges deste mundo o caminho da salvação, porque nós obviamente não aceitamos o senhor Jesus Cristo nosso Deus e Salvador aleluia irmãos, glória, glória, porque não sabemos que temos a opção. É o mito da caverna dos dias modernos. Eles nunca conheceram um mundo onde o pensamento livre é não só valorizado como encorajado.

Isto gera pérolas como esta e praticamente qualquer thread no Fórum Góspel.

Para mim a maior marca da intolerância destas pessoas é a frase “vou rezar por você”. É mais ou menos como dar um DVD da Brasileirinhas para um homossexual na esperança de que ele descubra que gosta da coisa.

[1] Eu sei que é uma coleção de livros, não precisa explicar.

(Meu orgulho é ter escrito um manifesto ateu com, segundo o wordpress, exatas 666 palavras até aqui)

Fã é bicho chato mesmo

Há alguns meses eu fui ver Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal no fim-de-semana de estréia. Simplesmente adorei o filme, tudo do velho Indiana Jones estava lá. Claro que não era Os Caçadores da Arca Perdida 2.0, mas ficou pau-a-pau com A Última Cruzada. Baita filmão, valeu cada centavo.

Aí, por um acaso, passo por um review do filme. Os críticos (que são, lembrem-se, nada mais que cineastas frustrados) odiaram o filme do fundo do coração adiposo deles. “Decepcionante” era uma palavra que eu via em todos os reviews.

Ontem, então, eu fui ver Clone Wars. Outro filme fantástico, mas, dessa vez, devem ser mantidas as devidas proporções. Ele é o piloto de uma série de TV, e é uma animação, logo, não deve ser comparado aos outros filmes. É um filme mais leve no quesito dilemas morais, muito mais bem-humorado, e com um estilo próprio.

Novamente, os críticos e fãs atacaram fervorosamente o filme. A maioria disse odiar o estilo visual, o que é no mínimo estranho, já que é parecidíssimo com o estilo da série animada Clone Wars, e esta fez um sucesso tremendo, como apontou o Cardoso.

Meu conceito de fã deve ser diferente do senso comum, aliás. Para mim, fã é aquele que adora o trabalho de uma banda, uma série, um filme, e não aquele que odeia fervorosamente cada novidade de seu objeto de idolatria. Eu entendo perfeitamente porque os críticos odiaram o filme. Esse é o trabalho deles, aparentemente. Eles devem adorar filmes independentes, feios à base de maconha e cachaça, e odiar a mainstream. Se um filme que eles viram quando crianças (quando ainda não eram burros suficiente para odiá-lo só porque todo mundo adorava) é refeito, ganha uma seqüência ou uma preqüência, um spin-off, mesmo que igualmente bom ou melhor, eles devem odiá-lo com todas as forças. É assim que eles ganham dinheiro. Ninguém lê uma crítica de cinema, por sinal, para ouvir a opinião da massa.

Eu me considero um fã de ambas as séries, e não digo fã incondicional por considerar isso redundante. Eis a diferença: eu não sou fã de Matrix. Sou fã do primeiro Matrix.

Ninguém deveria se dizer fã de Star Wars, Indiana Jones ou RBD que seja no momento que diz sinceramente que odeia uma parte.

Como o Twitter pode destruir um blog

O Twitter pode ser uma ferramenta (?) fantástica para os blogueiros. Acompanhando as Twittadas dos outros blogueiros, dá para se ter uma idéia ótima do que rola atualmente na blogosfera, e tirar umas boas idéias para posts. Mas também dá para se auto-destruir com ele. Explico: Eu tenho muito mais facilidade e paciência para sintetizar uma idéia em 140 caracteres do que para espichar ela, explicar cada detalhe dela. Este post todo poderia ter sido reduzido, por exemplo, em “Nossa, 4 dias sem atualizar meu blog. Twitter ainda vai me deixar desempregado.” Pronto, 78 caracteres.

Explicar bem uma idéia, explorar cada detalhe dela, não é para qualquer um. Nem sintetizar tanto, diga-se de passagem, mas procurar cada parte de uma idéia que pode não ser compreendida de imediato por outras pessoas exige muita empatia, habilidade que eu não tenho. Eu preciso me utilizar de lógica para procurar isso, pensar de forma não linear, e isso é um esforço muito maior do que eliminar cada pedaço óbvio de uma idéia.

Óbvio… Algo sobre o que a minha mãe sempre me fala, por sinal, é que normalmente o que é óbvio para mim, não é para o resto do mundo. Seja por conhecimento prévio, seja por simples facilidade em entender o assunto, em utilizar pura dedução lógica.

Assunto blogueiro sempre tem, senão não mereceríamos o título. Gosto por escrever também, senão faríamos textos medíocres e não ganharíamos dinheiro com o que fazemos (não que seja uma profissão tão rentável, se comparar número de horas trabalhadas sobre lucro líquido). O que pesa mesmo é a lei do menor esforço. O esforço de esmiuçar um assunto, pensar nele até que ele se esgote, escrever sobre ele, ordenar o texto, revisar, achar vocabulário, formatar o post… Tudo isso é grande demais, tudo isso cansa. O que nos mantém blogando, muitas vezes, é pelo simples amor por emitir opinião, nos diferenciar da massa, mostrar que pensamos, que somos mais inteligentes que a maioria. O Twitter nos deixa fazer tudo isso, em 140 caracteres, mas a visibilidade não é a mesma. A importância não é a mesma. Ninguém vai ser lembrado como “Um dos maiores twitteiros do Brasil”, e ser lembrado é o que importa. Ser lembrado é o que nos motiva, é o que prova que a nossa opinião está sendo ouvida e discutida, que estamos fazendo algo, que servimos de exemplo (mesmo que seja um mau exemplo).

Em menos de um mês usando o twitter, eu notei que a produtividade do meu blog caiu drasticamente. Quantas idéias que joguei fora, que teriam dado ótimos posts, se não fosse pela comodidade que o Twitter nos dá. Então eu me comprometi a twittar menos e pensar bem antes de fazê-lo. Não dá para deixar a ferramente escravizar o criador [de conteúdo].

O Twitter tem vantagens demais para ser deixado de lado, porém. Ele é um ótimo meio de auto-promoção. Os textos são tão curtos que, antes de que seja possível se vale ou não a pena lê-lo, já é possível tê-lo lido. Daí para que as pessoas notem que vale a pena acompanhar o que tu dizes, é um passo.

Acompanhar gente inteligente também é ótimo, muitas vezes não é óbvio para nós que algo vale a pena ser comentado, que renderia um post, até vermos o dito assunto ser comentado por outras pessoas. Às vezes não é nada óbvio que a nossa opinião pode ser tão polêmica que um post mais completo sobre o assunto seria interessantíssimo.

Twitter é como beber vinho, recomendado para quem sabe o que está fazendo.

 
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