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Da Inutilidade das Traduções

Eu tive sorte de ter nascido em uma família que valoriza a cultura, ao contrário da maioria dos brasileiros. Aprendi a ler cedo, não devia ter quatro anos ainda, e desde então não parei. Estou sempre lendo algo, me sinto até mal caso passe muito tempo sem ler.

E também tive a chance de aprender inglês desde cedo, morar fora, adquirir fluência. Graças a isso eu leio muito em inglês, e de uns anos para cá, passei a dar preferência para o texto original sempre que possível.

Há muito tempo eu me irritava com traduções mal feitas, como o clássico “It will be decided by general will” que virou “será decidido pelo General Will” ou num filme de futebol americano (acredito que era Duelo de Titãs) em que a torcida gritava “Miss! Miss! Miss!” e a legenda dizia “Moça! Moça! Moça!”. Finalmente há algum tempo eu cheguei a uma conclusão a respeito das traduções que inclusive me compeliu a remover da minha lista de livros lidos todos os que tenha lido traduções e começar a pensar em aprender alemão para ler Nietzsche.

Não existem traduções. Existem interpretações de um texto alheio.

Quem já leu Nietzsche ou Shakespeare em português sabe do que eu estou falando quando vê notas de rodapé que duram 3 ou 4 páginas para explicar o porque que aquela palavra em específico foi escolhida para aquele lugar no texto.

E foi daí que surgiu a teoria de uma maneira mais generalizada (que o Marcus me apontou não ser matemática). São duas partes, então vamos lá.

Peguemos duas línguagens quaisquer, diferentes entre si. Vamos chamá-las de x e y. Agora pegue duas palavras, uma de cada uma dessas línguas, cujo significado objetivo é o mesmo. Vamos chamá-las de a e b, sendo a uma palavra de x e b uma palavra de y. Observe que, aparentemente, uma pode ser traduzida para a outra. Agora listemos todos os significados de a e todos os significados de b. Não há bijeção. Praqueles que não estudaram teoria dos conjuntos, uma bijeção acontece quando há uma função que mapeia todos os elementos de um conjunto em outro, e sua função inversa mapeia todos os elementos do outro conjunto no um. Neste caso, para todo o significado de a (que pertence a x) há um e somente um significado de b (que pertence a y) que é equivalente.

Se houvesse uma bijeção nestes termos entre duas palavras de línguas diferentes, seria possível traduzir estas palavras entre si sem qualquer perda semântica, mas isto é impossível. Pode fazer o teste, mesmo com palavras de línguas extremamente próximas como o português e o espanhol. Pegue um bom dicionário de ambas as línguas, ache as palavras e compare os significados. Pelo menos a intensidade implícita de pelo menos um dele não será correspondida.

Tá acompanhando até aqui?

Agora, um argumento possível aqui seria de que traduções não devem ser feitas palavra-por-palavra, mas sim preservar o significado de uma sentença entre línguas. E é justamente aí que entra esta minha teoria. Será preservado um significado, aquele que o tradutor percebeu ao ler o texto original. Além disso, vários significados diferentes do original podem ter sido adicionados à sentença não intencionalmente.

E tem mais: pegue duas línguas novamente. Pode ser quaisquer línguas, desde que não sejam ambas a mesma. Existe sempre pelo menos uma palavra em uma dessas línguas que não tem nenhum significado em uma palavra da outra língua. Esta parte da teoria é mais intuitiva, já que estamos cansados de ouvir que saudade não pode ser traduzida corretamente para nenhuma outra língua.

Então toda tradução é uma empreitada fútil e uma agressão ao texto original, ao escritor e aos leitores. E nem me deixe começar com as dublagens!

 
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